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| Foto: Reprodução/TV Globo/Arquivo |
Aliados do presidente Lula (PT) afirmam avaliar, em conversas reservadas, que a percepção do eleitorado sobre preços e endividamento é um risco maior para a campanha de reeleição do petista do que as acusações contra um de seus filhos por suposto envolvimento em lobby para venda de medicamentos ao Ministério da Saúde.
Lula e seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), entraram em uma disputa explícita sobre a saúde da economia, que se intensificou a partir do pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia.
O presidente e seus aliados afirmam que, com exceção da taxa de juros (hoje em 14% ao ano), têm bons resultados econômicos para apresentar ao eleitorado, como baixo desemprego e inflação controlada. Mas admitem que os juros pioram o endividamento da população e das empresas e que tem sido um desafio colher os dividendos de medidas, como a isenção de Imposto de Renda.
A gestão do petista tem sido criticada pelo aumento da dívida pública, que chegou a 82,5% do PIB (Produto Interno Bruto). A crise em empresas do varejo, turbinada pelos juros altos, também tem sido usada por advesários.
Flávio constatou que o tema ressoa e tem explorado a crise das Casas Bahia e os preços dos alimentos.
Apesar do destaque que as acusações contra o filho de Lula ganharam no noticiário e em discursos políticos, tanto petistas quanto bolsonaristas ouvidos pela Folha consideram que o caso, ao menos com as informações disponíveis atualmente, não deve ser suficiente para tirar eleitores do petista, mas dificulta a conquista de novos votos.
Fábio Luís, que ficou conhecido nacionalmente como Lulinha, tem sido alvo de acusações por uma suposta atuação com a lobista Roberta Luchsinger para tentar vender medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. Ele nega irregularidades.
A percepção sobre economia, por sua vez, é um tema muito mais sensível para o eleitorado do que as acusações contra o filho do presidente, de acordo com políticos dos dois lados. Nas últimas semanas, a disputa desencadeou uma batalha de vídeos em supermercados.
Um integrante da campanha de Flávio que não quis ser identificado afirma que a picanha que elegeu Lula em 2022 pode ajudar a derrotá-lo em 2026. A referência é à promessa, feita pelo petista na última eleição, de que o corte ficaria mais acessível.
Na semana passada, o senador foi a um Armazém Solidário em São Paulo, programa que oferece alimentos com preços mais baixos, e levantou uma peça de carne ao lado do prefeito Ricardo Nunes (MDB). "Aqui com o Ricardo Nunes tem picanha. Com o Lula, não tem picanha", declarou o candidato.
Já reparou o que dá para comprar com R$ 100 hoje em dia? Como sustenta uma família assim?", disse o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em um vídeo em que afirma ter pago R$ 45,99 por um pacote de café.
"Tem gente que só vai em mercado cenográfico cheio de ator", rebateu a ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, em um vídeo mostrando os preços do mercado onde diz fazer compras, em Brasília.
"Aqui no mundo real o café mais caro está R$ 34, mas tem café de tudo quanto é preço", afirmou, acrescentando que o preço havia subido no ano passado devido a uma quebra de safra no Vietnã, à menor produção brasileira e ao aumento da demanda mundial.
Além do enfrentamento público, responsáveis pelas redes sociais da campanha petista identificaram uma série de perfis que teriam disseminado conteúdo semelhante aos discursos de Flávio sobre os preços no supermercado.
O grupo petista deverá pedir uma investigação à Justiça Eleitoral, sob o argumento de que pode se tratar de uma rede estruturada para espalhar informações falsas.
Além de explorar o preço dos alimentos, a campanha do PL tem batido na tecla de que a situação das Casas Bahia não é isolada.
A avaliação é de que a crise da varejista, uma das marcas mais famosas do Brasil, dá a Flávio a possibilidade de traduzir didaticamente para o eleitorado os danos causados pelos juros altos. A tônica é dizer que as empresas sobreviveram à pandemia, mas estão falindo com Lula.
Na semana passada, o senador foi a uma das três lojas que tiveram as atividades encerradas em Brasília. A campanha registrou as portas completamente fechadas. Os vídeos ainda não foram ao ar.
Flávio também tem usado, nas redes sociais e em discursos públicos, o slogan "Essa dívida não é sua, essa dívida é do Lula", em que associa o endividamento da população à dívida pública do país.
Ao justificar sua decisão de não ir ao debate da TV Bandeirantes, no último domingo (23), o senador afirmou que quer enfrentar "quem acabou com o poder de compra dos brasileiros" e sufoca "quem gera empregos", em uma referência a Lula, que também não compareceu.
"Eu quero debater com quem faz com que a caixa de Bis com 20 unidades passe a ter 16, o papel higiênico com 40 metros passe a ter 36. [Com quem] faz até a dúzia de 12 ovos virarem 10", disse Flávio.
Aliados do presidente ouvidos pela reportagem avaliam que a principal tarefa da campanha é promover os resultados do petista na economia que está mais próxima do dia a dia do eleitorado –como o desemprego em torno de 5,4%, um patamar baixo, o pico nos níveis de renda e a inflação cumulada relativamente baixa.
Recentemente, um estudo mostrou que o petista é o presidente com a aprovação mais sensível a temas econômicos nos últimos 30 anos. Bolsonaro, pai de Flávio, foi o menos suscetível.
A última pesquisa Datafolha mostrou que Lula tem 39% das intenções de voto para o primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro tem 33%. Para o segundo turno, o petista tem 47% contra 43% do bolsonarista, um empate técnico no limite da margem de erro de dois pontos percentuais.
Por Catia Seabra, Thaísa Oliveira e Caio Spechoto, Folhapress

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