"Vamos usar todas as ferramentas que a Constituição põe à disposição do governo. Durante os estados de emergência, as Forças Armadas assumirão temporariamente a liderança das operações de segurança e do controle interno, em estreita coordenação com a Polícia Nacional, até que a autoridade do Estado seja plenamente restabelecida e esses territórios sejam devolvidos aos cidadãos", continuou, sob aplausos de seus apoiadores.
Ao lado das consequências do El Niño, fenômeno climático que deve impactar profundamente o Peru este ano, a segurança pública será a primeira frente de emergência de seu governo, disse Keiko. "Tememos pelas nossas vidas quando saímos à rua ou com a possibilidade de nossas casas serem inundadas em poucos meses", afirmou.
A frase ressoa no país, que viu, entre 2018 e 2025, as denúncias anuais de homicídios passarem de 1.000 para 2.600, enquanto as de extorsão aumentaram mais de oito vezes, chegando a 26,5 mil. Este último crime, disse Keiko, "sufoca o pequeno comerciante, o mototaxista, o empreendedor que trabalha tanto para construir um negócio".
Ela falou também em reformar o sistema penitenciário, "para que as prisões voltem a ser centros de reclusão e deixem de funcionar como centros de operação do crime organizado", sem mencionar, no entanto, as quatro megaprisões de segurança máxima que prometeu ao longo da campanha.
Keiko escolheu fazer um discurso conciso, de menos de uma hora, e iniciar sua fala com a promessa de não se estender no poder —como fez Alberto Fujimori, em 1992, ao dissolver o Congresso, intervir no Poder Judiciário e iniciar uma ditadura com o apoio das Forças Armadas.
"A partir deste 28 de julho de 2026, começaremos a escrever nosso futuro pelos próximos cinco anos. Nem um dia a mais", afirmou a nova presidente.
Fujimori, condenado por corrupção e violações de direitos humanos e morto em 2024, é lembrado principalmente pelo combate às guerrilhas Sendero Luminoso e Movimento Revolucionário Túpac Amaru —legado reivindicado por Keiko ao longo da campanha, apesar das violações da ditadura do pai.
A presidente eleita fez um duro da situação do país, que classificou de catastrófica, apesar do domínio de sua sigla nas diversas instituições da nação na última década, marcada por uma instabilidade que levou nove políticos à Presidência.
"Devemos ter a coragem de olhar nossa realidade de frente, sem anestesia, sem maquiagem e sem meias verdades", afirmou, mencionando um Estado enfraquecido pela corrupção. "Essa incapacidade do Estado é consequência de décadas de governos que renunciaram, com indiferença e descaso, à tarefa de reduzir as desigualdades que separam milhões de peruanos do acesso a serviços essenciais".
Embora estável economicamente, o Peru convive com uma das mais altas taxas de informalidade da América Latina e um elevado grau de concentração de renda —características herdadas pelo modelo econômico implementado por Fujimori na década de 1990.
A nova presidente reafirmou seu compromisso com a estabilidade fiscal, política consagrada no Peru, e prometeu um "profundo processo de desregulamentação". Ao mesmo tempo, falou em aumentar o salário mínimo para 1.300 soles peruanos (quase R$ 2.000) e reduzir a informalidade no mercado de trabalho, "sem afetar nenhum direito dos trabalhadores".
Antes de seu discurso, membros da oposição, incluindo o Juntos pelo Peru, partido do derrotado nas eleições de junho, Roberto Sánchez, deixaram o plenário enquanto apoiadores aplaudiam a agora presidente. Do lado de fora, manifestantes também protestavam contra a nova presidente.
O processo de contagem dos votos foi marcado por acusações de fraude da oposição e tentativas de anulação de milhares de votos do exterior —justamente aqueles que garantiram a vitória da primeira mulher eleita presidente do Peru por uma margem de quase 50 mil votos.
Foram 50,135% dos votos para Keiko, ante 49,865% para Sánchez. A política fez questão de acenar para a metade do país que não votou nela. "Que nossas diferenças sirvam para nos unir na busca do bem do país. Não existem dois Perus distintos. Existe um só Peru: vibrante, multicultural, forte e milenar, pronto para se levantar", afirmou ao fim do discurso desta terça.
Sua posse marca a volta do fujimorismo em meio a uma onda de direita na América do Sul. Estavam presentes na cerimônia de Keiko muitos dos expoentes da tendência, como Daniel Noboa (Equador), Santiago Peña (Paraguai) Javier Milei (Argentina), José Antonio Kast (Chile) e Rodrigo Paz (Bolívia).
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está representado pelo chanceler Mauro Vieira. Já o Uruguai, um dos únicos países governados pela esquerda ao lado do Brasil na região, enviou seu presidente, Yamandú Orsi.
Por Daniela Arcanjo/Folhapress
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