Página



04 abril, 2026

Projeto secreto de compra do Master pelo BRB caiu por terra após descoberta das fraudes

A semana era de comemoração do aniversário de 59 anos do BRB (Banco de Brasília). Um show do cantor de piseiro João Gomes para 3.000 funcionários do banco estava marcado para 4 de setembro do ano passado no complexo da Arena BRB, no estádio Mané Garrincha.

O clima da festa, porém, azedou. Na véspera, o Banco Central tinha vetado a compra de uma parte do Master pela instituição.

Era o fim do projeto Vértice, como foi batizada a operação secreta montada pelo comando do BRB com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Para alguns funcionários que alertaram o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, do risco de um negócio com um banqueiro novato e de baixíssima reputação, a sensação foi de alívio. Entre aqueles que jogaram o banco público numa crise sem precedentes havia uma grande tensão.

Antecipada pela Folha de S. Paulo, às 21h da noite do dia 3, a decisão do BC de barrar o negócio só seria comunicada oficialmente no dia seguinte.

A notícia não chegou a surpreender totalmente a Faria Lima, principal centro financeiro do Brasil, que acompanhava Vorcaro desde o fim do ano anterior, quando uma solução de mercado, patrocinada pelo BC com apoio de André Esteves, dono do BTG Pactual, foi tentada para evitar a quebra do Master.

A proposta não foi para a frente devido às resistências dos grandes bancos, em particular do Itaú Unibanco. Procurado, Esteves não quis comentar. A defesa de Vorcaro também disse que não iria se manifestar.

Quando percebeu que o negócio não sairia, Vorcaro começou a dizer a interlocutores, incluindo dirigentes do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que tinha um comprador para o banco.

Os executivos do setor bancário já tinham convicção da inviabilidade do Master. Eram crescentes os rumores sobre os problemas de liquidez e a insatisfação dos grandes bancos privados pelo crescimento do volume de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) emitidos pelo Master com garantia do FGC.

O que mais chamou a atenção do mercado financeiro foi a negociação com o BRB -um dos cinco bancos públicos regionais do país. O acordo foi bancado pelo governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), que mantinha ligação com lideranças de partidos do centrão e conhecidos aliados de Vorcaro no mundo político.

Nos dias seguintes ao anúncio, a pergunta que circulava era: por que um banco público entrou na operação para salvar o Master?

A resposta é hoje um dos principais focos de investigação de um inquérito aberto pela Polícia Federal e que tem Ibaneis, Vorcaro e Paulo Henrique Costa, como investigados, além de integrantes do BRB.

O CEO de um banco, que falou na condição de anonimato, lembra que o negócio foi visto com estranheza: um banco estatal virando controlador de uma instituição privada com problemas sérios de liquidez e cujo dono alimentava a narrativa de que os grandes bancos não queriam concorrência. Eles defendiam que Vorcaro fosse banido do mercado pelo BC.

De fato, menos de uma hora após o anúncio da operação, Vorcaro não escondia em conversas relatadas à reportagem, o plano de integrar o conselho de administração do BRB.

Vorcaro dizia que a operação era ganha-ganha para os dois bancos e que teria uma cogestão com o BRB no banco. O Master passaria, segundo ele, a ter acesso ao funding do BRB, mais barato e de longo prazo, e o BRB teria um braço privado com menos amarras, inclusive de regras de licitação governamental, para atuar com maior autonomia.

O BRB vinha chamando atenção no noticiário pelo contrato de patrocínio do Flamengo e pelo empréstimo de R$ 3,1 milhões concedido ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para comprar uma mansão em Brasília, mesmo tendo salário mensal apontado como incompatível para o financiamento.

Apesar da surpresa quando a aquisição foi comunicada a BC, nos corredores do BRB corria um tititi muito antes, quando começaram reuniões frequentes com pessoas de fora do banco na chamada Sala 1, envidraçada, no gabinete da presidência.

Os encontros começaram em janeiro e logo atraíram a atenção dos funcionários do BRB, que passaram a chamar o grupo de trabalho de "secreto". Sabia-se nos corredores era que as tratativas visavam à aquisição de um banco. Em pouco tempo, alguns empregados já tinham conhecimento de que se tratava do Master.

Em relatório entregue ao BC no início de fevereiro de 2025, o então presidente do BRB defendia a compra como um movimento estratégico para o crescimento do banco.

Os principais interlocutores de Vorcaro e Paulo Henrique Costa no BC eram o ex-diretor de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves de Souza, e o ex-chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana. Os dois são hoje investigados por suspeita de facilitar os interesses do Banco Master.

Numa reunião em fevereiro entre Vorcaro, Costa e a diretoria de fiscalização, os representantes do BC pediram para que a proposta de compra fosse formalizada, segundo uma troca de mensagens vista pela reportagem. Procurado o BC, não respondeu a um pedido de informações sobre esse encontro.
O fato relevante da proposta de aquisição de 58% das ações do Master, com preço estimado na ocasião em R$ 2 bilhões, foi divulgado em 28 de março, quase três meses depois do começo das conversas no BRB.
Para integrantes do BC ouvidos na condição de anonimato, a data não é uma coincidência. Aquele era praticamente o fim de um prazo dado pelo órgão para que o Master adotasse medidas de correção, depois que o banqueiro descumpriu um plano para recuperação de liquidez de R$ 15,1 bilhões.

Até hoje, o ex-presidente do BRB defende que a operação de compra era vantajosa para o BRB. Procurada pela reportagem, a defesa de Costa afirma que a operação foi conduzida de forma institucional. "Essa tentativa de aquisição não se concretizou e não gerou qualquer impacto patrimonial no BRB", diz a defesa.
Até o veto da operação, foram 159 dias de análise do pedido pelo BC, sob a presidência de Gabriel Galípolo. O período foi marcado por pressões da área política e do setor financeiro, seja para aprovar a operação ou para derrubá-la.

O processo de análise passou por várias fases. No início, o BC buscou uma negociação de mercado com apoio do FGC. O fundo chegou a aprovar em maio de 2025 uma linha de assistência ao Master para honrar os CDBs que estavam vencendo.

O BRB, por outro lado, começou a desidratar a operação, deixando as de fora as operações de maior risco de Vorcaro.

As descobertas das fraudes e o avanço das investigações pelo BC enterraram as chances de aprovação do negócio.

Como mostrou a Folha de S. Paulo, dois meses antes da decisão final de barrar a compra do Master, o BC também já tinha comunicado as duas instituições financeiras que o pedido não poderia ser aprovado.
Em julho de 2025, Galípolo e o procurador-geral do BC, Cristiano Cozer, entregaram uma comunicação das irregularidades ao Ministério Público Federal.

"Os cadáveres demoram a aparecer", como resumiu o CEO de um grande banco. As fraudes e a liquidação do Master serão tema do próximo capítulo da série.

LINHA DO TEMPO CASO MASTER

Julho de 2024

BRB faz uma primeira rodada de operação de aumento de capital e uma segunda em dezembro com uso de fundos da Reag. Após as duas operações, consideradas suspeitas de serem irregulares pelos investigadores, Vorcaro, o seu ex-sócio do Master, Maurício Quadrado, e o fundador da Reag, João Carlos Mansur, se tornam acionistas de 23,5% do capital do banco.

Dezembro de 2024

Fracassa solução de mercado para uma saída para o Master e Vorcaro propõe ao BRB a venda de uma parcela do Master. Ele quer uma vaga no conselho de administração do BRB.

Janeiro de 2025

Começam reuniões na sede do BRB do GT que trabalha na operação de aquisição de parcela Master. O negócio secreto é chamado de Projeto Vértice.

Fevereiro 2025

Vorcaro e Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, comunicam informalmente a integrantes do BC intenção de fazer a operação.

Março de 2025

No dia 28 de março, o BRB formaliza em fato relevante interesse de fazer a operação de compra de parte do Master. O anúncio foi feito dias antes de expirar o ultimato que o BC deu para o Master resolver os problemas identificados pela área técnica de liquidez.

8 de Abril de 2025

Em 08 de abril, Vorcaro é formalmente informado pelo BC de que as ações adotadas até aquela data eram insuficientes para mitigar o risco de liquidez do conglomerado. Ele assina um novo acordo pelo qual tem que fazer a recomposição imediata da liquidez.

15 de abril de 2025

Vorcaro pede ao FGC uma linha de empréstimo para viabilizar uma reorganização societária e uma saída organizada do mercado.

4 de maio de 2025

O FGC concede uma linha emergencial de curto prazo de cerca de R$ 4 bi ao Master para a cobertura dos CDBs.

Julho de 2025

Após confirmar os sinais de fraudes em carteiras de crédito consignado, que surgiram a partir de análises aprofundadas realizadas em março de 2025, o BC comunica ao MPF as irregularidades para investigações.

3 de setembro de 2025

BC veta a operação e comunica a decisão ao BRB e ao Master Anúncio é feito no dia seguinte pela autarquia.
Por Adriana Fernandes / Folhapress

Nenhum comentário:

Postagem em destaque

Lula amplia verbas de propaganda de big techs, que superam SBT e Band pela primeira vez

A verba de propaganda do governo Lula (PT) destinada para Google e Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp) superou pela primeira vez, ...