O PT chega a 2026 enfrentando dificuldade em parte do Nordeste, considerado historicamente um “bastião da esquerda”. Pesquisas recentes indicam vantagem da oposição em Estados-chave como Bahia, Maranhão e Ceará, enquanto, em outros, os palanques seguem marcados por indefinições, disputas internas e negociações abertas.
Em boa parte da região, a estratégia do partido depende do envolvimento direto do presidente Lula (PT), tanto para bater o martelo sobre alianças quanto para servir como cabo eleitoral de candidaturas que hoje aparecem atrás nas pesquisas, caso do Rio Grande do Norte, por exemplo.
Em termos de candidaturas majoritárias aos Executivos estaduais, a esquerda corre o risco de perder uma parcela significativa do poder territorial acumulado nas últimas décadas. Levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da UnB, indica que, mantido o cenário apontado pelas sondagens mais recentes, a esquerda pode registrar, em 2026, seu pior desempenho nas eleições para governador no Nordeste desde a chegada de Lula ao Planalto, em 2002.
Siglas de centro e centro-direita, como MDB, PSD e União Brasil, lideram as intenções de voto na maior parte dos Estados — ainda que, em muitos deles, integrem alianças com partidos da esquerda.
Medeiros afirma que, embora a região Nordeste continue sendo estratégica para Lula, já não funciona como um reduto automático.
“O voto nordestino tornou-se mais volátil, urbano e pragmático, sensível a temas como custo de vida, segurança pública e qualidade dos serviços públicos”, diz Medeiros, citando a perda de capilaridade territorial do campo nos últimos pleitos. “Em 2018, partidos do campo progressista governavam estados que concentravam cerca de 90% do eleitorado nordestino. Esse percentual caiu para 74% em 2022 e agora pode recuar para algo próximo de 23%.”
Vitor Sandes, cientista político e professor da Universidade Federal do Piauí, adota um tom menos pessimista. Para ele, embora o PT corra riscos, a força da máquina federal — e também da máquina estadual, nos casos em que governadores petistas disputam a reeleição — e o voto casado com Lula tendem a reverter o cenário desfavorável das pesquisas.
“O PT corre alguns riscos no Nordeste, como no Maranhão e no Ceará, este último onde há um fato novo, que é Ciro Gomes. Também há desafios, sobretudo diante do movimento que o PSD fez ao lançar três pré-candidatos à Presidência, embora exista certa flexibilidade nos Estados”, avalia o especialista. “O mais importante para o partido é manter uma votação expressiva a Lula na região e garantir palanques fortes, mesmo que ele não saia com cabeça de chapa”, completa.
Alagoas: Estado tem embate acirrado entre ministro Renan Filho e prefeito JHC
Em Alagoas, a disputa está acirrada entre o ministro dos Transportes de Lula, Renan Filho (MDB), e o prefeito de Maceió, JHC (PL), que ainda não confirmou se tentará a reeleição. Renan Filho tem 48% e JHC, 45%, segundo a pesquisa Real Time Big Data de novembro.
Embora petistas e emedebistas tratem como certo o apoio a Renan Filho, o presidente estadual do PT em Alagoas, deputado estadual Ronaldo Medeiros, evita cravar a aliança.
“No PT temos etapas. É preciso reunir a Executiva Estadual, o Diretório Estadual, para mais na frente decidir”, diz o dirigente. Questionado se há uma tendência de apoio, ele respondeu que “política tem uma dinâmica diferenciada”. “Muda muito. Então vamos aguardar.”
Bahia: ACM Neto lidera, mas Jerônimo aposta na máquina e em Lula
Alguns dos Estados em que o centro e a centro-direita aparecem bem posicionados são governados pela esquerda há anos. É o caso da Bahia, que está sob gestão do PT desde 2007. Lá, a mais recente pesquisa Real Time Big Data, divulgada em novembro do ano passado, aponta o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) na liderança, com 44% das intenções de voto, à frente do atual governador Jerônimo Rodrigues (PT), que soma 35%.
Diante do cenário difícil, como mostrou o Estadão, setores do PT chegaram a aventar a possibilidade de Jerônimo abrir mão da reeleição em favor de Rui Costa, ex-governador do Estado e ministro da Casa Civil de Lula. A ideia, no entanto, foi rechaçada publicamente pela cúpula do partido e, segundo petistas, está fora de cogitação.
Aliados de Jerônimo relativizam as sondagens eleitorais e avaliam que o governador deve ganhar fôlego ao longo do ano. A aposta passa, sobretudo, por entregas da gestão em Salvador, onde o carlismo é mais forte. Entre os trunfos esperados está o lançamento de um VLT na capital com 40 quilômetros de extensão.
O partido ainda espera ganhar impulso a partir da formação da chapa ao Senado — que contará com Costa e o senador Jaques Wagner — e da consolidação da aliança com o PSD local, que integra a base do governo. A presença de Lula no Estado também deve ser determinante: o presidente vai passar parte do Carnaval na capital baiana, ao lado do pré-candidato à reeleição.
A experiência mais recente da Bahia mostra que o cenário eleitoral sempre pode surpreender. Na campanha passada, ACM Neto era o favorito nas pesquisas, mas Jerônimo, então desconhecido, conseguiu reverter o quadro com o apoio da máquina estadual e de Lula.
Ceará: Ciro Gomes vira dor de cabeça para o PT, que prevê disputa acirrada
No Ceará, o desempenho de Ciro Gomes nas pesquisas virou uma dor de cabeça para o PT. Dirigentes da cúpula nacional avaliam que a disputa tende a ser tão difícil quanto a eleição para a Prefeitura de Fortaleza, em 2022, decidida por uma diferença de cerca de 10 mil votos entre Evandro Leitão (PT) e o bolsonarista André Fernandes (PL).
Filiado ao PSDB desde o ano passado, o ex-governador e ex-presidenciável negocia apoio do PL e lidera o levantamento mais recente do Paraná Pesquisas (CE-05139/2026), de janeiro, com 44,8% das intenções de voto. Elmano de Freitas (PT), atual governador, aparece atrás, com 34,2%.
O cenário adverso levou à especulação sobre uma eventual substituição de Elmano por Camilo Santana, mas o próprio ministro da Educação afirmou que, se deixar o MEC, será para se dedicar à campanha do aliado e de Lula.
“Não existe plano B. Elmano é o candidato. Se Camilo deixar o ministério, vai ajudar muito aqui, percorrendo o Estado e reforçando as agendas de mobilização”, disse o presidente do PT do Ceará, Antônio Filho, o “Conin”.
O dirigente negou que haja um cenário de preocupação e disse que o partido aposta na desidratação de Ciro Gomes ao longo da campanha.
“O desempenho do Ciro é muito ligado ao recall que ele tem. Ciro é muito conhecido no Estado, foi governador, candidato à Presidência, mas a aprovação do governo Elmano é muito boa, está perto dos 60%. O gap entre a pesquisa e a avaliação do governo está na comunicação das realizações e das entregas da gestão.”
Maranhão: esquerda se divide e larga atrás nas pesquisas
No Maranhão, a esquerda enfrenta desarticulação interna. O governador Carlos Brandão (sem partido) rompeu com o vice, Felipe Camarão (PT), e, em vez de apoiá-lo como sucessor, passou a defender o nome do sobrinho, Orleans Brandão (MDB).
Na pesquisa Real Time Big Data divulgada em dezembro, ambos aparecem atrás. O prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), lidera com 43%, seguido por Orleans Brandão, com 29%, e Camarão, com 7%. Mesmo com a pré-candidatura de Camarão, o PT segue na base de Brandão, à espera de uma intervenção de Lula para resolver o impasse.
“O PT está aguardando o presidente Lula dialogar com o governador Brandão e com o Felipe para resolver essa situação”, disse Francimar Melo, eleito presidente do PT-MA, mas que ainda aguarda decisão da Justiça para assumir o posto.
O petista avalia que, se o partido lançar candidatura própria sem o apoio do governador Brandão, enfrentará dificuldades no Estado. “Nosso interesse é ter uma candidatura que una o campo político. Se o Felipe sair candidato e o Orleans concorrer com o apoio do Brandão, isso será prejudicial não só para a estratégia local, mas também para o palanque do presidente Lula.”
Paraíba: partido ainda deve escolher candidato
Na Paraíba, o governador João Azevêdo (PSB) vai apoiar o seu vice, Lucas Ribeiro (PP), que deve disputar contra o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB). No levantamento mais recente do Real Time Big Data, divulgado em dezembro, o emedebista aparece com 35% das intenções de voto, contra 20% de Ribeiro.
O PT ainda não definiu qual dos dois apoiará, segundo a presidente estadual da sigla e deputada estadual Cida Ramos. “O partido ainda não decidiu (seu palanque), mas os dois candidatos buscam o apoio de Lula e são aliados do presidente, que venceu nos 223 municípios do Estado na última eleição. Será uma decisão conjunta do diretório estadual com o presidente Lula”, afirmou.
Pernambuco: João Campos lidera com vantagem
Em Pernambuco, estado natal de Lula, a esquerda respira mais aliviada. O prefeito do Recife, João Campos (PSB), mantém vantagem sobre a governadora Raquel Lyra, do PSD. A última pesquisa Paraná, de dezembro, mostra Campos com 53,1% das intenções de voto, contra 31% de Lyra.
A disputa, porém, não é dada como garantida. A diferença entre os dois vem diminuindo, a ponto de o próprio PT flertar com a candidatura da atual governadora. No entorno de Lyra, a aposta é que a estrutura do PSD, partido ao qual ela se filiou no ano passado, dê fôlego à campanha, especialmente após a ofensiva do presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, sobre as prefeituras. A sigla ultrapassou a marca de 70 prefeitos no Estado e, hoje, comanda mais de um terço dos Executivos Municipais pernambucanos.
Lyra também promoveu ajustes na comunicação para enfrentar João Campos no ambiente digital, por onde o adversário se tornou nacionalmente conhecido. Segundo aliados, a governadora passou a priorizar a produção de conteúdos para redes sociais, com divulgação de entregas e a incorporação de um tom mais pessoal à comunicação.
O deputado federal Carlos Veras, presidente do PT de Pernambuco, afirma que a definição sobre o palanque da sigla no Estado ficará a cargo do presidente Lula. A aliança com Campos é vista como o caminho mais natural, mas Veras não descarta que o PT adote outra estratégia.
“Estamos compondo o governo do Recife e temos uma aliança com o PSB; portanto, esse é o caminho natural, o apoio a João Campos. Mas há também o PSD da governadora Lyra, que comanda três ministérios no governo Lula. O que o PSD vai colocar na mesa? Vai apoiar o presidente Lula nacionalmente? Vai liberar os Estados? Uma coisa é o curso natural, que pode se manter. Outra é a possibilidade de diálogo e mudanças. Caso o PSD, por estar na base do governo federal, queira sentar à mesa para conversar com Lula, essa decisão cabe ao presidente Lula. Hoje, no entanto, o caminho natural é a manutenção da aliança.”
Piauí: governador petista caminha para vitória
Um dos cenários mais confortáveis para o PT é no Piauí, onde o governador Rafael Fonteles (PT) caminha para uma reeleição tranquila. Levantamento do Real Time Big Data, divulgado em novembro, mostra o petista com 67% das intenções de voto, patamar que garantiria vitória em primeiro turno.
Rio Grande do Norte: vice rompe com Fátima Bezerra, que aposta em secretário desconhecido
O Rio Grande do Norte é um dos Estados em que o PT vive situação mais crítica. O vice-governador Walter Alves, do MDB, já disse que não vai disputar a eleição para suceder a governadora Fátima Bezerra (PT) e inclusive deve renunciar junto com ela para não assumir o comando do Executivo.
Fátima vai apoiar o secretário estadual da Fazenda, Cadu Xavier (PT), que está em terceiro lugar na pesquisa do Real Time Big Data divulgada em dezembro, com 10% das intenções de voto. Allysson Bezerra (União) soma 36%, em empate técnico com o senador Rogério Marinho (PL), que tem 34%. Marinho desistiu para atuar na campanha de Flávio Bolsonaro. Enquanto isso, Allysson Bezerra sofreu um revés na última semana ao ser alvo de uma operação da Polícia Federal com suspeita de desvios da saúde.
Samanda Alves, vereadora de Natal e presidente estadual do PT, pondera que Cadu ainda é muito desconhecido e nunca foi candidato a nenhum cargo eletivo – por isso, aparece atrás nas pesquisas.
“Confiamos na força do Lula”, afirmou a dirigente. “É um desafio torná-lo conhecido, mas temos certeza de que, durante a campanha, ele vai crescer e chegar ao segundo turno. Embora o governo de Fátima Bezerra não tenha uma avaliação muito boa, pessoalmente ela é bem avaliada. O nome dela, associado ao de Lula, vai ajudar a impulsionar o Cadu.”
Sergipe: partido ainda vai bater o martelo
Em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri (PSD) lidera a pesquisa Real Time Big Data de novembro, com 46% das intenções de voto. Atrás dele, está Valmir de Francisquinho (Republicanos). Segundo um dirigente da nacional, tudo indica que o partido vai apoiar Mitidieri. O senador Rogério Carvalho disse, em entrevista ao Portal Fan F1, que a discussão será feita pelo partido.
Por Estadão

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