14 janeiro, 2026

Armarinho de R$ 100 passou a R$ 31 bi em 4 anos em fundo que integra a ciranda bilionária do Master

>Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Arquivo<
A estrutura financeira formada pelos fundos investigados por integrar o esquema do Banco Master tinha como etapa um processo acelerado de reavaliação de ativos, feito muitas vezes sem comprovação. Uma das empresas que integrava esse arranjo foi um armarinho paulista, cujo capital social passou de R$ 100 para R$ 31 bilhões em quatro anos.

De 2020 a 2024, o Pereira e Silva Comércio de Armarinho S.A. mudou de nome e passou a atuar no mercado de créditos de carbono. Nesse período, ele foi adquirido por dois fundos administrados pela Reag, gestora investigada por participar de suposta ciranda financeira que inflava artificialmente ativos no caso Master. A transformação da companhia foi noticiada em dezembro pelo UOL.

A estimativa do valor da nova empresa, rebatizada de Global Carbon, foi feita com base numa avaliação de ativos realizada pela Horbia, contratada para reestimar o capital da companhia.

Responsável técnico pelas avaliações, o economista Marco Aurelio Hardt afirmou a jornal Folha de São Paulo que a avaliação se baseia no balanço —que, segundo ele, havia sido auditado. Hardt não informou, no entanto, o nome da empresa que fez a auditoria.

"Não tenho que investigar a história da empresa. Eu recebo balanço auditado da Global Carbon de 31 de dezembro de 2024 e assumo isso como dado", disse.

A avaliação colocou o antigo armarinho Pereira e Silva entre as 50 maiores empresas do Brasil de acordo com o site Companies Market Cap, que lista o valor de mercado das companhias abertas no mundo. O escritório também mudou de endereço do bairro Cidade Monções, na zona oeste da capital paulista, para um edifício luxuoso no Itaim Bibi.

Um dos fundos que se tornaram donos do armarinho, o New Jade 2, está na ponta de uma cadeia de controle de fundos que se inicia no Hans 95, um dos seis apontados como fraudulentos pelo Banco Central.

A prática de inflar ativos teria sido usada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para desviar recursos do Master a partir de empréstimos a empresas que aplicavam em fundos geridos pela Reag, de acordo com investigação da Polícia Federal e do Banco Central. 

Os recursos eram repassados para outros fundos, numa cadeia que levava à valorização desses ativos, irrigando o que os investigadores apuram ser "laranjas do Vorcaro".com a reavaliação, os dois fundos que detêm as ações da Global Carbon tiveram uma valorização bilionária. Os R$ 6,64 bilhões detidos pelo New Jade 2, em ações da Global Carbon passaram a valer R$ 7,75 bilhões. No Regia, os R$ 19,8 bilhões registrados nas demonstrações no fim de 2023 passaram para R$ 23,3 bilhões no fim do ano passado.

A informação sobre a transformação do armarinho surgiu no contexto da operação Carbono Oculto da Receita Federal, que também investiga a Reag por, segundo os investigadores, lavar dinheiro do PCC. O que se sabe agora é que a empresa virou ativo em um fundo que participa da intrincada cadeia financeira montada pelo Master.

Procurado, o Master não respondeu aos questionamentos feitos pela Folha. A Reag informou que atua como gestora e administradora de fundos regulados e fiscalizados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), com demonstrações financeiras auditadas e publicadas e que suas avaliações seguem "metodologia técnico-científica desenvolvida pela Unesp e auditada por terceiros independentes, sem interferência da Reag".

O Pereira e Silva Comércio de Armarinho foi criado em agosto de 2020 em São Paulo. Ele contava com dois sócios, e sua sede ficava no bairro Cidade Monções. Sua finalidade, de acordo com a ata de criação do empreendimento, era a venda de artigos de armarinho no varejo.

Tudo mudou em março de 2023 com a entrada dos dois fundos da Reag, gestora que atua do mercado financeiro e administrava fundos do Master.

Os dois fundos se chamam New Jade 2 e Regia. Com a entrada deles no negócio, o capital social da Pereira e Silva Comércio de Armarinho subiu de R$ 100 para R$ 26,6 bilhões.

Não foi a única mudança. Com a chegada dos fundos, o nome da empresa mudou para Sião, e seu objeto social —a descrição detalhada das atividades que desempenha— foi alterado para a venda de créditos de carbono.

Em setembro de 2024, a Sião mudou novamente de nome e passou a se chamar Global Carbon. Neste momento, sua diretoria também mudou. Silvano Gertzel, que era diretor da Reag e executivo sem designação específica da Global Carbon desde abril de 2023, deixou a companhia. No lugar dele, entrou o advogado mineiro Thiago Assumpção Henriques.

Thiago Henriques aparece em um negócio imobiliário de R$ 70 milhões do pai de Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro, na Bahia. Um dos terrenos comprados pela família Vorcaro foi transferido para uma empresa chamada AFC Holdings.

O diretor-presidente da AFC é Thiago Henriques. Foi ele quem representou a empresa na escritura do imóvel. Henriques não respondeu aos questionamentos da reportagem.

A AFC Holding faz parte de uma teia empresarial da família Vorcaro que inclui dezenas de companhias, sendo a principal delas a Multipar, da qual Henrique, pai de Daniel, é fundador e presidente, e Natalia, irmã, é diretora.

As fraudes envolvendo fundos fazem parte das diversas denúncias feitas pelo BC ao MPF apontando indícios de irregularidades na atuação do Master. A primeira foi a revenda ao BRB (Banco de Brasília) de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes, segundo os investigadores.

A segunda trata da sobreposição de fundos de investimentos, que tiveram o patrimônio inflado tendo como pontapé recursos oriundos de empréstimos simulados do Master.

Veja o passo a passo do esquema descoberto pelos investigadores

O Master emprestava dinheiro para uma empresa, que tinha outro dono não relacionado diretamente com o banco, mas que também fazia parte do esquema de fraudes.

A empresa pegava o dinheiro do empréstimo e aplicava os recursos em fundos da Reag.

O que aparecia nos sistemas monitorados pelo BC era que o empréstimo tinha sido feito dentro dos limites que a legislação bancária exige (regra de Basileia).

O gestor do fundo da Reag, que recebeu o dinheiro cuja origem inicial era o empréstimo do Master, comprava um ativo podre com baixa liquidez pagando um preço muito acima do que ele vale. Ele então registrava no patrimônio do fundo o ativo adquirido com preço supervalorizado.

O vendedor, por outro lado, ficava com lucro de um ativo de pouco valor que foi adquirido por um preço elevado.

Em seguida, o vendedor usava o dinheiro recebido pelo ativo também em outro fundo. Dessa forma, os valores passavam de fundo em fundo até desaguar em carteiras que tinham titularidades de laranjas ligadas ao grupo Master.

Por Lucas Marchesini/André Borges/Adriana Fernandes/Folhapress

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